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Jun/Jul 2008

Albert Fishlow: Abrir as portas é atalho para a prosperidade

Para o economista americano, a globalização é fundamental para que o Brasil cresça e faça parte da vanguarda tecnológica

Bruno K. Reis e Armando Mendes
Fishlow: educação e exportações são críticos

Em quase 50 anos dedicados ao estudo do Brasil, o professor Albert Fishlow assistiu e ajudou a interpretar os mais diversos tipos de crises no país – transições políticas traumáticas, inflação galopante e trocas de moedas, entre outras modalidades de tormentas tropicais.

No horizonte atual, Fishlow vislumbra um cenário distinto, embora faça ressalvas à condução da política econômica brasileira e minimize a importância das recentes descobertas de petróleo no país.

“O Brasil está entrando no seu maior ciclo de crescimento de exportações desde a Segunda Guerra”, afirma. A inserção na economia global é algo novo na experiência brasileira, segundo ele, e precisa ser estimulada para ter continuidade. Só assim o Brasil terá condições de fazer frente ao avanço dos outros Brics – especialmente China e Índia.

“Com a globalização, o país consegue acesso aos avanços dos outros países e fica no primeiro grau de avanço tecnológico”, afirma Fishlow. “Quando o país fecha as portas, perde essa possibilidade”, diz o professor, que está escrevendo um livro que cobre a história brasileira a partir da Nova República.

Crise, hoje em dia, é preocupação de americanos como Fishlow, que foi diretor do Centro de Estudos Latino-americanos da Universidade Columbia, em Nova York, até o ano passado, e hoje é professor emérito da instituição. Fishlow, a bem da verdade, não está tão preocupado assim com o destino da economia americana.

“A crise, em seu fundamento, foi superada”, afirma. Nesta entrevista exclusiva, concedida à PIB no fim de maio na sede paulistana do Unibanco – comandado por Pedro Malan (presidente do Conselho de Administração) e Pedro Moreira Salles (presidente-executivo), dois de seus inúmeros ex-alunos brasileiros –, elogia a atuação do presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, na superação dos piores momentos da crise.

Como o senhor avalia a crise americana?
Ninguém mais fala da crise dos Estados Unidos, e a razão para isso é a reação rápida do Federal Reserve. O ponto crítico foi a decisão do Fed de garantir os empréstimos do Bear Stearns, em março, para permitir que o JP Morgan assumisse o banco. Foi algo inesperado, pois uma intervenção dessas nunca havia ocorrido. O Ben Bernanke, presidente do Fed, disse a essa altura que estava pronto para defender o sistema financeiro. Depois disso, o mercado se acalmou. Hoje não há grandes medos da falência do sistema bancário, apesar da situação do mercado de crédito. O Bernanke é especialista na Depressão dos anos 30. Ele certamente tomou essa decisão para evitar que aquela experiência se repetisse.

A crise, então, está superada?
Há boatos e sempre surgem especuladores querendo se aproveitar das possibilidades do mercado. Mas a crise, em seu fundamento, foi superada. Pelo motivo que agora todo o mundo entende que o Fed não vai deixar o sistema financeiro quebrar.

A salvação dos bancos americanos suscitou críticas sobre a atuação do Fed, que só atuou na crise. Antes disso, os bancos atuaram como quiseram...
Foi necessária a salvação. Os acionistas do Bear Sterns não perderam tanto quanto teriam perdido se o banco quebrasse. Mas o sistema financeiro todo se beneficiou com a decisão. Foi melhor do que ver gente se jogando pela janela, como na Crise de 29.

O que deverá ocorrer agora que não há mais risco de colapso do sistema financeiro?

Estou otimista, pois, além da atuação do Fed, temos o Congresso tratando do problema dos indivíduos que não conseguiram pagar suas hipotecas. A idéia é que os valores das dívidas sejam reduzidos para garantir a manutenção das pessoas dentro da casa própria. A perspectiva, que era tão negativa no início, vai se alterando. Há um lado conservador que diz que a crise vai retornar, pois ninguém perde o que deveria ter perdido. Mas o outro lado dessa questão é a conseqüência da crise na sociedade como um todo. Os impactos indiretos, como deixar gente sem a casa própria, não entram nesse cálculo conservador. O problema mais sério dos Estados Unidos hoje é a continuação do déficit em conta corrente. Embora tenha havido redução do valor do dólar na ordem de 20%, o déficit na conta corrente está em cerca de 6%, por causa do aumento do preço do petróleo e apesar da redução das importações dos bens de consumo. Na teoria convencional, a resolução desse problema é a desvalorização do câmbio, o que diminui a demanda de consumo e aumenta as exportações. Mas estamos falando de um país central na economia mundial e devedor principal do mundo. É de se imaginar a conseqüência de uma desvalorização da ordem de 40% para o mercado interno e para os países que possuem bônus americanos. O Japão e a China detêm, cada um, cerca de US$ 1 trilhão em bônus. O mundo está muito diferente de há 25 anos e temos a necessidade de achar outra maneira de tratar do problema. Evidentemente, os Estados Unidos precisam fazer algo para limitar as importações. Uma boa coisa poderia ser a apreciação da moeda chinesa e de alguns países.

Os Estados Unidos têm pressionado a China a desvalorizar sua moeda...
Sim, e a China está mudando o câmbio mais rápido do que antes. Mas o que estou sugerindo é que precisamos enxergar o problema como uma questão internacional, e não apenas dos Estados Unidos. Vai levar algum tempo para os bancos centrais dos outros países perceberem isso.

No início da crise, temia-se que ela fosse se espalhar por outros países, mas isso não ocorreu. Por quê?
A reação rápida do Fed em reduzir as taxas de juros evitou o contágio. Entre setembro de 2007 e abril deste ano, a taxa de desconto caiu de 5,25% para 2%. Foi uma queda rápida e trouxe conforto para quem não sabia o que Bernanke pudesse fazer. Ele havia acabado de substituir o Alan Greenspan. Aliás, acho que foi melhor termos o Bernanke nesse momento, pelo conhecimento que ele tem da Depressão.

A emergência de países que viraram grandes produtores e consumidores, como China e Índia, não ajudou a amortecer os efeitos da crise?
Sim, mas isso já vinha acontecendo, é anterior à crise. Desde 2005, 50% do crescimento anual do mundo é gerado pelos países em desenvolvimento. Todos se lembram da década de 1980 e do tempo que levou para se sair das dificuldades que começaram em 1982. Mas esquecemos que a economia mundial se recuperou rapidamente das crises dos anos 1990, com os problemas no México, na Ásia, na Rússia, no Brasil, na Argentina. E foram os Estados Unidos e sua capacidade de continuar crescendo naquele momento que permitiram essa saída rápida. Hoje, mesmo com a China e a Índia crescendo, temos o grande aumento do preço do petróleo e das commodities para complicar o cenário. O problema começa com o petróleo. Os países asiáticos, incluindo a China, estão com problema de inflação, o que também ocorre na América Latina e no Oriente Médio.

O senhor vê solução para a questão do petróleo?
De certa maneira, a alta do petróleo é a solução. Primeiro, porque reduz o consumo. Segundo, porque os preços em alta provocam maior demanda por etanol e incentivam a busca por novas fontes de petróleo, dois movimentos que já são sentidos no Brasil. Também há a pesquisa na área de biotecnologia, com etanol de celulose. Esse tipo de combustível já funciona, o problema é o preço. Com pesquisa e investimentos contínuos, imagino que em cinco anos os Estados Unidos terão deixado de produzir etanol a partir do milho.

O Brasil vem anunciando grandes descobertas de petróleo. Como o senhor avalia esse fato?
Duvido que o Brasil virá a ser um grande exportador de petróleo. Ninguém sabe ainda qual é o custo de se produzir sob a camada de sal, onde se encontram as novas descobertas. O Canadá tem capacidade de produzir muito petróleo betuminoso a um custo da ordem de US$ 60 o barril. Esse custo poderá ser inferior ao do Brasil. O presidente Lula diz que o Brasil será o terceiro produtor mundial em algum tempo, mas ser um grande produtor não é sinônimo de desenvolvimento. Podemos atestar isso no caso da Venezuela e mesmo da Arábia Saudita, que não se diversificaram. É bom ter o recurso, mas o futuro não depende dele.

O senhor afirma que diversificação da economia é condição para um desenvolvimento durável e contínuo. Como o senhor avalia a condição do Brasil atualmente?
O Brasil, apesar do aumento dos preços das commodities, tem uma pauta de exportação muito diversificada. Há um número maior de parceiros comerciais e uma quantidade maior de produtos que estão sendo exportados. A Embraer, que é uma das maiores exportadoras brasileiras, conseguiu competir no mercado internacional por ser também um dos principais importadores. Ela foi utilizando as leis de vantagens comparativas para conseguir atingir sua posição. O mesmo está acontecendo no setor de automóveis, que continua a exportar mesmo com o mercado interno crescendo muito. A diversificação de destinos e de fontes de exportação é uma base que vai continuar a ser importante para o desenvolvimento do país.

O Brasil acaba de lançar uma nova política industrial. Que qualidades e defeitos o senhor vê nela?
A nova política tem, a meu ver, o ponto positivo de demarcar as exportações como elemento essencial. Mas pode oferecer subsídios em excesso para os produtos. Também creio que a meta de investimento para 2010, da ordem de 21% do PIB, seja insuficiente para se atingir uma taxa contínua de crescimento de 5% ao ano.

Por que o senhor considera a meta de investimento pequena?
Porque o país está necessitando de grandes investimentos em infra-estrutura. Fazendo as contas, precisamos de uma taxa de investimento da ordem de 25% no Brasil. Além disso, o país está trabalhando hoje com 83% ou 85% da capacidade de produção. Não há tanta margem para produzir, portanto, sem novos investimentos. Penso que o superávit primário possa ser elevado, para o governo tornar-se o poupador. Mas essa idéia enfrenta resistências no governo brasileiro.

O boom de exportações da Ásia se deu em grande parte pela poupança interna dos países. Há quem acredite que o Brasil deva seguir esse modelo. O que o senhor acha?
Em 1959, a taxa de poupança do Brasil era de 19% do PIB. Cinqüenta anos depois, estamos no mesmo lugar. A Índia e o Chile estão acima de 25%. A China está em 45%.

A que se deve essa incapacidade brasileira de fazer poupança?
O Celso Furtado dizia que a culpa é do brasileiro rico que tem o desejo de seguir o modelo americano, de alto consumo. Isso poderia ser superado se começássemos a pensar que o Estado deve ser o elemento central da nova estratégia. Mas ele deve ser central como poupador de recursos, permitindo a expansão de investimentos, o que não está ocorrendo. O consumo do governo tem crescido muito.

Que mudanças ocorridas nos últimos tempos no Brasil o senhor considera mais importantes?
Houve um grande avanço, a começar pela democratização. Quando cheguei ao Brasil pela primeira vez, em 1965, o governo era militar. Isso é uma coisa fundamental. Nos últimos 15 anos, os principais avanços foram o controle da inflação, as privatizações e o avanço nas exportações. O Brasil exportava pouco. No final dos anos 1980, o Brasil exportava o mesmo que Burundi, Ruanda e Birmânia, em termos de porcentagem do PIB. Agora o país está começando a exportar de maneira contínua e está conseguindo um período mais longo de crescimento das exportações desde o final da Segunda Guerra Mundial. Antes, havia sempre um período em que havia um aumento em um ano, e no ano seguinte havia redução das exportações. Esses elementos são novos na experiência brasileira. O ponto crítico é a educação, que é outro fator que podemos aprender com os países asiáticos, a exemplo da elevação da poupança e do investimento.

Como o senhor vê a posição do Brasil entre os Brics?
Brasil, Índia e China vão se tornar concorrentes. Já se vê as manufaturas da China no Brasil e o Brasil querendo competir, exportando. Daqui a pouco vai haver uma concorrência ainda maior porque está entrando nos Estados Unidos o automóvel chinês. Logo, os chineses vão concorrer com a Embraer. Mesmo a Índia, que tem um investimento grande em serviços, vai começar a produzir um automóvel com preço muito barato. O Brasil vai ter de concorrer com o mundo e, assim, deverá privilegiar os setores nos quais possui vantagens comparativas dinâmicas.

Quais setores seriam esses?
Isso vai depender do progresso tecnológico. Se tem um investimento hoje em dia no Brasil em ciência e tecnologia, ele é pequeno em comparação com o investimento na China e na Índia. Para ter tecnologia avançando, é preciso ter uma força de trabalho bem formada, fazer investimentos em ciência e tecnologia e, ao mesmo tempo, necessita da globalização. Porque com a globalização o país consegue acesso aos avanços dos outros países e fica no primeiro grau de avanço tecnológico. Quando o país fecha as portas, perde essa possibilidade.

foto: Julio Bittencourt



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